Dignidade: o elo quase perdido

O número de pessoas que dormem nas ruas aumentou assustadoramente. Gente de todas as idades, crianças sozinhas e acompanhadas de outras crianças ou adultos. Estes, espalham-se em qualquer lugar. Enfiam-se em qualquer buraco, ou se deitam meio da calçada mesmo. Noite dessas, saí do trabalho bem mais tarde que o usual e me assustei o ver a marquise na esquina da Rio Branco com a Nilo Pessanha se transformar num albergue ao ar livre. Para mim, que passo ali na hora do rush, foi um susto. Os “hóspedes” arrumavam seus ninhos, uns comiam uma quentinha, outros se acomodavam em colchões improvisados. A cena rude se espalha por grande parte da cidade.

A pobreza assusta, a falta de ação governamental também. Do que essas pessoas precisam? Trabalho? Casa? Se os tem, falta dinheiro e tempo para voltar para seus lares? O que é um lar? Muitas questões, mas nenhuma delas me é maior do que onde estaria ou quanto mediria a dignidade dessas pessoas. Talvez essa seja a maior falta de todas elas. Dormir é ficar inconsciente, e inconscientes ficamos expostos. Essa exposição extrema é que me agride. A auto-preservação é um traço de dignidade e quem dorme na rua ou vaga por ela pedindo não tem auto-preservação.

Mas a dignidade escasseia-se não só nos mendigos e vagantes de nossas ruas. Essa escassez também se reflete nos candidatos a famosos, cujo objetivo de vida é ficar famoso somente. Antes, a fama era originada por um feito grandioso ou hediondo. Ou então, pelo conjunto de boas ou más ações. Agora não. Um exército se candidata a ficar encarcerado numa casa e mostrar todas as suas fragilidades em cadeia nacional. No final, o que tiver menos mazelas (ou que melhor souber escondê-las) fica famoso, ganha um prêmio e é esquecido logo depois. Falta dignidade em quem, teimosamente contrariando a ciência, defende o uso liberado das drogas, abraça a Lagoa Rodrigo de Freitas de mãos dadas com outros tão indignos quanto. Ou então vai para a praia de Copacabana defender a maconha, usando uma mascara para não ser reconhecido. Falta dignidade em nós, povo, ao não lembrarmos em quem votamos na última eleição. E nessa condição, somos incapazes de cobrar uma atuação responsável dos parlamentares.

A falta de dignidade é, tristemente, um novo traço. Uma inversão do sentido da existência humana. A noção de dignidade é um das coisas que nos diferencia dos animais. Somos detentores de uma atividade cerebral sofisticada, e somos à imagem e semelhança de um Criador. Esta imagem e esta semelhança não devem estar no plano de nossas formas físicas, mas principalmente no nosso caráter, na nossa maneira de interagir com o meio e com o próximo. Um dos meus medos é de que quem trilhe no caminho da indignidade não tenha a chance de escolher algo diferente. Medo não significa esperança perdida. E a esperança morre cinco minutos depois do homem. Ainda estou vivo.

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