30 de dezembro de 2016

Veraneou

Mesmo que haja problemas,
Que a pressão seja grande,
Que a voz não seja ouvida,
Nem a mensagem entendida,
Mesmo que a incompreensão prevaleça
E a estupidez apareça
Começou o verão.
No horário e na estação.
Virão o calorão e o mate com limão.
Terá a praia lotada (talvez, arrastão).
Também piscina Toni na laje.
Marquinha aparecendo no decotão.
Falaremos de aquecimento global,
Fritaremos ovo no chão.
Tá lotada a Lapa, mermão.
Na escola tem sambão.
Começou o verão.
No horário e na estação.
Que seja de amor, que seja de paz.
Porque a vida não está fácil, rapaz.

(Alexon Fernandes)

9 de outubro de 2016

A Mulher Mais Bonita do Brasil

O fato de mulher negra - a paranaense Raissa Santana - vencer o concurso de miss Brasil (a segunda vez na história da competição, depois de 30 anos da primeira), coloca novamente em pauta a questão dos padrões aos quais estamos submetidos. Mais que isso, somos subjugados a esses padrões e obrigados a lidar com o descrédito, o desmérito, a desconfiança e, frequentemente, com o desrespeito. 

Tenho para mim, que a vitória no concurso não foi somente de uma lindíssima mulher. Mas sim de 100 milhões de pessoas que sofrem, sofreram ou sofrerão diariamente com o racismo no país mais "negro" do planeta. Recentemente, eu disse que o racismo me dá "bom dia" todos os dias. Na verdade, o racismo ainda nos empurra modelos que não os nossos, nos chama de "chefe", de "patrão" e afins, nos avacalha com seus elogios e, paradoxalmente, ao tentar nos deixar invisíveis e inviáveis, acaba por nos coroa as cabeças.

4 de junho de 2016

The Greatest is gone.

O maior lutador de todos os tempos se foi. 


Foi o maior porque demolia seus adversários, com sua força e sua inteligência. Foi o maior porque quando esteve no auge e tendo todo o poder da mídia a seu favor, soube usar isso para dar voz aos negros americanos. Foi o maior porque resistiu por 30 anos o mal de Parkinson. A história do esporte e da sociedade civil do século não seriam as mesmas sem ele.

Descanse em paz, Muhammad Ali.

(Alexon Fernandes)




Cor da pele, a chave hermeneuta.

O recente caso de ofensas racistas à cantora Ludmilla - somado aos outros episódios ocorridos com Thaís Araujo, Maju e Sheron Menezes - mostra uma nova modalidade do racismo. O racismo de incômodo ou da inveja.
Explico:
Nos últimos 20 anos, temos visto com mais frequência (ainda que muito pequena) negros ocupando lugares de poder. Por lugar de poder, entenda-se não somente o exercício do poder, mas também o poder enquanto ação. Poder fazer, poder estudar, poder ter, poder viajar, poder comprar, poder morar e outros tantos "poderes" que até então era restrito a um outro grupo social.
Lembro-me de uma vez um chefe meu me contar um diálogo entre ele e um diretor da empresa em que trabalhávamos. O então diretor disse que tinha muito cuidado com o que falava comigo, pois tinha medo de ser acusado de racista. Meu chefe, que nunca teve papas na língua, retrucou: "Você deve ter medo do que fala, mas não por isso. É sim porque ele pega seus furos todos. Ele sabe mais que você."
A história mostra que a "chave hermenêutica" de sucesso é a cor da pele. Ou seja, ter a pele escura ou clara vai determinar para onde você poderá ir ou até onde deverá chegar em sua mobilidade social.
Só que a coisa não é bem assim.
Ludmilla, Thais, Maju e tantas e tantos outros romperam esse 'establishment', ocupando o horário nobre, as capas de revistas, os elevadores de prédios de luxo e os assentos em restaurantes finos. Isso é competir com quem nunca teve competição e não sabe dividir o espaço até então exclusivo. No caso das mulheres, pior ainda. Porque, além do machismo, há também a questão da estética calcada no padrão europeu.
Nada contra o padrão europeu. Mas o mundo não é só Europa. Entendam isso de uma vez por todas.
O negro ascende, as ofensas mudam e não são menos cruéis. "Já que ele está aqui, vamos fazer de tudo para que sinta desconfortável, fora de contexto, incomodado, até que ele mesmo desista e vá embora. E tudo volta à normalidade." Aí virão os olhares desconfiados, a respostas ríspidas, a demora, a ignorância às opiniões emitidas, o descrédito às credencias. E, como se não disse suficiente tudo isso, os ataques pelas redes sociais.
Não se nasce preto. Torna-se preto com o passar do tempo. Quem me disse isso foi a doutora em educação Mônica Sacramento. É verdade. Nascemos seres humanos. À sociedade é que nos divide em cores. E os negros que ascendem social e economicamente e que não se escondem, tornam-se mais negros ainda (e solitários). Uma pena. Perdemos tanto com isso! Todos nós.
E nem falei de Joaquim Barbosa, Wilson Simonal, Paulo César Caju...

8 de novembro de 2015

Acabou.

Sabe o que eu acho muito engraçado? A discussão que algumas pessoas tentam estimular nas redes sociais sobre a "mídia golpista". Estão esquecendo do principal: Estamos, talvez, na maior crise institucional e de valores do período pós ditadura militar.

A crise é tão grande que justamente se defende os erros do presente com os do passado. “Fulano errou? Ah... Mas beltrano também errou e ninguém falou nada.”

Parem as máquinas!!

Como assim? O princípio básico de qualquer sociedade minimamente equânime e madura deve ser não a justificação dos erros atuais com os erros anteriores de outros, mas sim evitar os erros. Será que ninguém vê isso? Ou vê e não quer admitir.

O sonho acabou, cara-pálida! Aceite isso. Seus heróis não morreram de overdose (o que já seria um desastre). Eles não morreram, estão saudáveis, ricos e com uma horda de ótimos advogados para defende-los nos tribunais, além de ótimos marqueteiros.

Quem se dana é você, sou eu, é o país. Nossa economia está aos trapos. Os estados, por mais austeros que sejam alguns de seus gestores, estão em situação de penúria. Jogou-se fora todas as chances de um crescimento econômico sustentável, o que de fato traria a tão falada inclusão social. Os programas sociais já sofrem cortes em seus financiamentos. Logo os pobres voltarão à triste situação que já conhecemos. E os miseráveis, coitados, esses nem viram realmente as suas vidas melhorem substancialmente. E não me venham com essa história de que tivemos a maior inclusão social na história. Se isso for verdade, preparemo-nos para ver a maior exclusão social da história, na sequência.


Acabou. Entendam, aceitem. Já será um bom começo para uma mudança de verdade. 

(Alexon Fernandes)

29 de abril de 2015

Humor

É simples: Ser minimamente bem humorado é uma das chaves que todo sujeito deve levar em seu chaveirinho da vida. Já temos problemas demais, crises demais, freios demais. Se não levarmos a vida com certa leveza e humor, já era. 

Humor não é gaiatice. É uma questão de tom. Humor é o cool jazz dos comportamentos. É estar super atento, muitas vezes fingindo que não está nem aí. É a autocrítica sem autoflagelo. É fazer a namorada rir no cinema lotado ou lhe provocar aquela gargalhada gostosa ao ler o bilhete surpresa, que você deixou última página que ela leu no livro da vez. É energia! Uma das mais preciosas, diga-se. E como tal, tem o poder de atração ou repulsa. Humor atrai as melhores pessoas, os melhores sentimentos e as melhores situações na vida. E se junto do humor vier aquela pitada de elegância, o resultado é avassalador (no melhor dos sentidos). 

Cultivemos e exercitemos o nosso humor. Façamos disso a jeito da vida e da alma. Usemos as chaves certas e joguemos fora as chaves erradas que só fazem o tal chaveirinho da vida pesar em nossos bolsos. Como já disse no início, a vida não anda nada fácil. Sem bom humor, ela fica inviável.

(Alexon Fernandes)

21 de abril de 2015

"Da igreja"

Hoje ouvi algo muito preocupante. Alguém disse que, preferencialmente, mantinha em seu círculo de relacionamentos e amizade somente pessoas "da igreja". Eu retruquei, dizendo que isso não fazia sentido. Pois, vivemos cercado de pessoas com os mais diversos pensamentos e crenças. Meu interlocutor insistiu no argumento, alimentado a ideia de que restringia ao máximo essa possibilidade, inclusive nas amizades de sua filha.

É reprovável, preconceituoso e muito distante do que o Cristo pregou e viveu. Ele era cercado de gente que não acreditava ou não entendia a sua mensagem. Ele impediu a execução por apedrejamento de uma mulher acusada de adultério, jantou na casa de um fiscal corrupto. Dentre seus amigos mais próximos, havia um traidor que o entregou à morte por um saco de dinheiro e um covarde que negou o ter conhecido. Jesus não tinha preconceito de origem, gênero ou condição social. Mostrou isso batendo um bom papo uma mulher, samaritana e bígama. Tocava em leprosos, quando a ciência ainda não havia descoberto como evitar o contagio da doença. Para fechar a tampa, foi crucificado (a mais humilhante das modalidades de execução naquela época), entre dois assassinos. Sendo que um deles se arrependeu do que fez e ouviu do próprio Jesus a garantia de que, em poucos instantes, estaria no paraíso. (Esse tirou muita onda!)

A "igreja", na história terrena de Jesus, tem um cunho, de certo modo, negativo. Era a sinagoga. E os "da igreja", os fariseus e outros doutos da Lei de Moisés. Lei essa que foi simplificada em duas: amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximos como a si mesmo. Amar ao "próximo" não é amar ao "próximo da igreja". É amar aquele pai-de-santo que mora no apartamento da frente, ou o budista do trabalho, ou o ateu que faz o MBA na sua turma. Jesus veio para todos. E se alguém que acredita nele achar que seu mundinho está resumido aos "da igreja", danou-se. Em Mateus 5:13-16, Jesus diz:

“Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens. Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus."


Toda vez que Jesus ia na "igreja", arrumavam uma confusão com ele. De tanto ser inquirido, questionado e sabatinado, culminou numa prisão político-religiosa que o levou à morte. Está tudo lá na Bíblia, o livro mais mal usado do Ocidente. Principalmente, aos domingos...

Eu tenho amigos e amores dentro e fora "da igreja". Minha família (pais, irmã, cunhado...) é "da igreja". A mulher que mais amei na vida não é "da igreja". Meu melhor amigo é "da igreja". O sujeito que me estendeu a mão num dos piores momentos da minha vida, e pelo qual tenho carinho e gratidão enormes, nunca foi "da igreja". A "igreja" está repleta de pessoas boas. Fora dela também. Na "igreja" tem gente que me fez sofrer profundamente. Fora dela idem.

No final das contas, o que me parece faltar à "igreja" é ser Igreja, de portas e braços abertos. Ser local de acolhimento e ser, paradoxalmente, um não-lugar. Expandir-se e cobrir as pessoa da graça que Jesus nos concedeu morrendo numa cruz.

Que Deus continue me dando sabedoria e amor para além "da igreja". Que Ele destrua em mim qualquer traço de soberba e não permita que minha visão se estreite.

(Alexon Fernandes, em 18 de abril de 2015)