Cinquenta Tons de Cinza – A culpa é dos homens.


Febre, best seller, hit. Chamem do que quiserem. O fato é que o tal Cinquenta Tons de Cinza é o acontecimento no mercado editorial mundial e comentado nas mais variados grupos femininos. Um mote mais do que batido, no estilo daqueles romances de banca de jornal, com pitadas de sexo explicito e com detalhes descritivos que encantam as mulheres. Uma receita e tanto para bombar nas vendas.

Entre as mulheres, três grupos: Um grupo das que se encantam e devoram o livro como uma leoa faz com sua presa. Um segundo que detestam o livro por acharem que ele não passa de um clichê em que a mulher é novamente colocada no papel de iludida, que acha que vai mudar o amado. Este homem, obviamente, bonito, viril, misterioso e, claro, (muito) rico. O terceiro grupo, sempre tem, o das mulheres alienadas à publicação, pelos mais variados motivos.

À despeito de discussões femininas ou libertárias, vou me atentar ao primeiro grupo, o das leoas famintas.  Tem livros que são menos interessantes que seu público, afinal. Mas, famintas de quê? De sexo, pura e simplesmente?  Ou alguma perversão? O que é perversão? Será que são umas bobonas que adoram um livro bem ao estilo da série “Momentos Íntimos”? São tantos comentários no Facebook, tantos exemplares sacados das bolsas nos cafés, metrôs e ônibus, que comecei a refletir não sobre a publicação em si, mas sobre o que faz tanta gente ler.  O que causa isso?

A minha primeira conclusão foi que este livro, ou a seu sucesso, é um fenômeno da minha geração. Somos (eu e os meus contemporâneos) a segunda leva da chamada “revolução sexual”. O assunto é meio batido, a revolução... Mas seus efeitos estão aí. Já disse isso antes, as mulheres mudaram, mas continuam as “mesmas”. O que mudou foi o modo de viver, o acesso às oportunidades, o nível de instrução, os cargos e os salários. O carro é comprado com o dinheiro delas, o apartamento também. O anel de brilhantes foi pago por ela mesma, no dia do seu aniversário. A viagem, bancada com as milhas que ela acumulou no cartão de crédito. Porém, elas continuam demandadoras de sentimentos e gestos de carinho, que  as inspirem a sensação de segurança e cuidado. Uma das mulheres mais donas de seu nariz que conheço uma vez me disse: “Todas as mulheres querem segurança vinda de um homem. Todas. Independente do quanto elas tenham ou sejam. O que elas querem é sentir que estão com um cara com quem elas possam contar, que seja amigo, que não fique apontando seus defeitos o tempo todo, carinhoso e parceiro para a vida.” Não sei se ela leu o livro. Se leu, muito provavelmente está no segundo grupo, deve ter detestado. Não por ser independente, mas por questões de preferência.

Se a mulheres mudaram e continuam as mesmas, os homens, com a revolução, ficaram piores. Muita gente está lendo este livro simplesmente para extravasar emoção. Grande parcela das mulheres que estão lendo e gostando do Cinquenta não é porque está doida por uma perversão. Pode até estar, mas muito provavelmente ela quer isso com o sujeito que ronca ao seu lado enquanto ela se deleita com o livro. Muitas são mulheres que tornaram sozinhas, acompanhadas por homens esquecidos. Muitas são lindas, que nos restaurantes da vida perderam os olhares de seus homens para a mulher da mesa ao lado. Muitas são solitárias em sua instituição marital. Muitas são solteiras que acham que nada de diferente vai acontecer. Muitas, simplesmente, apagaram-se. A autora do livro, E. L. James, tem muito a agradecer a esses homens o seu sucesso. Eles são grandes responsáveis pela fortuna que ela anda ganhando.

Não quero aqui dar uma de quem está acima do bem e do mal. Talvez eu seja um dos responsáveis também. Em algum momento, eu posso ter sido um dos culpados. Contudo, a grande verdade é que a negligência masculina com o aprendizado sobre essa nova ordem feminina pode ter isolado os dois lados. Mulheres querendo, homens querendo também e ninguém chegando a um bom termo. O livro tem uma espécie de linguagem visual, que mexe com o imaginário das mulheres. Mulheres imaginam e, nestes casos, homens podem realizar. A grana do personagem do livro, o avião, a viagem a Paris, são o pano de fundo. A solução de verdade é o aqui e agora, é na vida real. É a mensagem pelo celular, é a flor sem data especial, é ouvir prestando a atenção (é difícil, eu sei), é o abraço mais demorado. Aposto que isso vale mais que a grana. Rapazes, deixamos isso de lado. Uma mulher sacou (ou sofreu) isso e fez um livro, fraco de novidade mas forte de sinais. Sinais dados por quem lê, não pelo texto.

Cinquenta Tons de Cinza me faz concluir que o diálogo entre homens e mulheres anda muito ruim. E quando o diálogo é ruim, imagina-se qualquer coisa. Até com príncipe encantado. O livro contém absurdos, o tal príncipe é um machista que se exige suas mulheres estejam limpas, depiladas e frequentem a academia assiduamente. Quase um escravocrata. Certamente, as mulheres não querem isso. É O livro vende uma outra coisa: por pior que o comportamento do "Coronel Leôncio", a moça é desejada. Mas fica a questão. Pode ser que quem está gostando deste livro não está nem aí para o príncipe encantado mas só quer se sentir desejada e valorizada pelo cara normal que está ao seu lado.

Comentários

  1. Uma vez eu ouvi de uma amiga que, para o homem, a mulher é uma vagina com um algo em volta. O que ela quis resumir foi que o homem não se interessa pela mulher, apenas pelo conforto sexual que ela lhe proporciona. Esse é o pensamento de 9 entre 10 mulheres que já tiveram relacionamentos múltiplos. O que me espanta é que essas 9 resolveram ser o que os homens querem delas, apenas uma vagina. Eu ouço muitas mulheres cuspindo clichês masculinos sobre usar os homens dando-lhes a vagina em troca de um outro conforto que a satisfaça que não aquilo que realmente importa: o amor, o carinho, a atenção, o afeto. É uma prostituição onde a paga não é em espécie.
    Eu amo meu marido por tudo que posso ser com ele: uma mulher inteira. Amo por ele ser um homem que me olha, me ouve, me admira como mulher, me deseja, me apoia e me faz sentir importante em sua vida. Eu sou a 1 entre as 10 acima, e ele é 1 em 1 milhão no mundo...

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