Cada Gideão com os seus Trezentos

Uma das passagens mais interessantes do Velho Testamento é a história de Gideão (também conhecido com Jerubaal). Ele viveu no período dos Juízes ― guardiões da Lei de Moisés, que zelavam para que o povo hebreu dela não se afastasse. Gideão foi um juiz, o quinto, seguindo o relato bíblico. O significado do nome Gideão é variado, pode ser “destruidor”, “lenhador” ou “guerreiro”. O Velho Testamento da Bíblia nos ajuda a entender a origem das tensões que existem entre árabes e judeus. A coisa é milenar e não vai acabar tão cedo (mas isso é outra história).

O episódio que tornou Gideão não apenas um juiz, mas um “herói da fé”, foi a batalha ocorrida entre judeus e midianitas, nômades que viviam nos desertos da Síria e da Arábia. Os midianitas constantemente atacavam e pilhavam o povo hebreu. Em um destes ataques, os irmãos de Gideão foram assassinados. Gideão se rebela e se torna uma espécie de libertador de Israel. Ele recebe uma revelação e convoca um exército para ir a Midiã atacar seus inimigos. Consegue arregimentar 32.000 soldados. Ao sair para o confronto, Deus ordena que Gideão dispense parte de sua força, pois com tanta gente, Israel se esqueceria da providência divida e creditaria somente aos próprios esforços a vitória que estava por vir. Na primeira leva, vinte e dois mil homens desistiram, restando somente dez mil. Depois de mais um tempo, Deus disse novamente: “Gideão, tem gente demais neste exército. Mande-os beber água em um rio. Os que lamberem a água como cachorro serão os que ficarão com você.” Dos dez mil, somente trezentos fizeram assim (levavam a água até a boca e lambiam-na). Os outros 9.700 soldados se ajoelharam na beira do rio para matar a sede. Com estes trezentos homens, Gideão alcançou uma vitória grandiosa.

Desde criança gosto desse pedaço bíblico. É uma lição para a vida, para aparar nossas vaidades e mostrar que devemos ter fé acima de tudo. Mas a história pode ser emulada para as nossas relações. Na verdade, somos Gideões e temos os nossos trezentos gatos pingados. Ou seja, na hora da verdade, são poucas as pessoas em que podemos confiar. Alguns parentes, alguns amigos, alguns que aparecem em nossa vida somente para lutar algumas batalhas conosco e depois se vão. Alguns... Alguns poucos. Poucos mesmo. Os nossos “trezentos” são bem menos que trezentos. São menos do que os trezentos que convidamos para aquele festão, menos que os trezentos amigos do seu Facebook. Esses “trezentos”, não duvide, são contados com apenas dez dedos da mão. Talvez faltem “trezentos” e sobrem dedos.

Aos meus “trezentos”, quero dizer aqui que os amo e os quero por perto. Se você tem os seus, faça o mesmo. Porque está cada vez mais difícil achar “duzentos”. O que dirá “trezentos”.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Todos os Junhos do Ano

Brasil: Financiamentos versus Credibilidade

Cor da pele, a chave hermeneuta.